15 de março de 2011

Tragédia japonesa: no médio prazo, empresas brasileiras podem lucrar

A tragédia do Japão deve trazer impactos imediatos para as relações comerciais do país com o Brasil. No curto prazo, a paralisação e redução de ritmo de produção da indústria japonesa, em razão do racionamento de energia elétrica, pode ocasionar um remanejamento do fornecimento de insumos fabricados no Japão. Automóveis, autopeças e material eletroeletrônico predominam na pauta de importação de produtos japoneses pelo Brasil. A expectativa é de que a reconstrução do país, porém, gere aumento da exportação brasileira de produtos básicos.
Paulo Yokota, economista especializado em Japão, acredita que a demanda maior por minério de ferro deve acontecer já no segundo semestre deste ano. "O Brasil é um tradicional exportador para o Japão, que precisará de minério de ferro de maior valor agregado, para composição de ligas especiais", diz. No ano passado o Brasil exportou aos japoneses US$ 3,27 bilhões em minério de ferro e seus concentrados. O valor representa 45,8% do total exportado pelo Brasil ao país asiático em 2010 e coloca o Japão como um dos principais destinos do minério de ferro brasileiro. Dos embarques totais do produto pelo Brasil no ano passado, 11,31% foram comprados pelos japoneses. Os dados são do Ministério do Desenvolvimento (Mdic).
José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), diz que no segundo trimestre as exportações em geral para o Japão devem cair. "Num primeiro momento deve acontecer a suspensão de contratos, depois o cancelamento de alguns." Ele estima, porém, que as relações comerciais se restabeleçam no terceiro trimestre com aumento de demanda dos produtos tradicionalmente exportados pelo Brasil, o que inclui o minério de ferro. "O Japão deve tomar medidas para promover a construção rapidamente, sob o risco de entrar em recessão."
GARGALOS - Há, porém, possíveis gargalos a serem enfrentados. "A interrupção de fornecimento das usinas nucleares japonesas atingidas pelos tremores tem impacto na energia elétrica e na produção das indústrias, o que pelo menos a curto prazo deve brecar o desembarque de insumos", diz Castro. Outra questão é logística, já que os portos do nordeste do Japão não estão funcionando e quando houver aumento de demanda é preciso que haja de escoamento dos desembarques. Castro acredita que o Japão deverá aumentar as compras de minério de ferro, mas é possível que a exportação brasileira sofra forte concorrência de fornecedores mais próximos aos japoneses em termos geográficos, como a Austrália. Além de minério de ferro, diz Yokota, o Japão terá alta demanda por outros produtos básicos. "Há oportunidade de elevar as vendas de carne de frango, suco de laranja e celulose, por exemplo."
Do lado das importações brasileiras com origem no Japão, Castro acredita que poderá haver um impacto mais imediato, principalmente no setor de automóveis e autopeças. Dos dez maiores importadores brasileiros de produtos "made in Japan" em 2010, seis são desse setor. O efeito, diz, pode não ser tão grande para os fabricantes de eletroeletrônicos, que têm mais condições de suprir a produção brasileira com insumos fabricados em outros locais.

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