5 de novembro de 2012
Que exemplo: mineira de 83 anos é estudante de direito
Desnecessário o uso de muitas palavras. O fato em si fala mais alto. Martha Lucena, 83 anos,mineira, é estudante de direito (segundo semestre). Antes, atuou como jornalista e editora do jornal “Diário de Minas”. Agora, em 2012, blogueira oficial do "Tribuna do Direito". Para homenageá-la, transcrevemos, na íntegra, um post seu em que relata seu cotidiano como universitária.
Tenho 83 anos. Sou universitária
Estou finalizando o segundo semestre do curso de Direito do Centro Universitário Uma em Belo Horizonte. Olho minhas notas: são muito injustas. Não que sejam injustas. São injustas diante do imenso esforço que fiz para um resultado tão medíocre. Parecem aquelas notas que as professoras puxam um pouquinho para cima para não verem o aluno malandro novamente na sala de aula. Fico com uma saudade danada daquela menina pretensiosa que bastava olhar um texto e já o sabia de cor, se aquilo lhe tocasse a sensibilidade. Da menina que sabia Drummond, o livro inteiro, e o aplicava nos seus momentos sensíveis. Estava aborrecida? “Mundo, mundo, vasto mundo se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima não seria uma solução.” E sorria porque “mais vasto era o seu coração” . Quantos trechos de Camilo, Eça, Machado de Assis, Fernando Pessoa seguiam como sombras benéficas o seu trajeto de vida! Escritores cochichando constantemente aos seus ouvidos a frase inspirada para aquele momento especial. Não importavam muito as “pedras no caminho”. No caminho tem uma pedra? Ela saltava, era uma cabrita.
A menina pretensiosa não se abalou nem no dia da formatura do curso primário no “Barão do Rio Branco”. Era uma solenidade, naquele tempo, muito prestigiada. Comparecia até o secretário da educação. Uniformes limpíssimos, sapatos pretos brilhavam e a própria professora conferia tudo antes da cerimônia. “Abra a boca para ver se escovou os dentes. Suspenda a meia. Como vai aparecer para o senhor secretário com esta meia ababadada?” No salão nobre estávamos perfiladas e explodindo de orgulho. A menina pretensiosa era a oradora. Vamos depressa para o final da cerimônia. D Gabriela fez a chamada para a distribuição de medalhas de aplicação, claro, para a menina pretensiosa e outras poucas colegas. Ao finalizar a cerimônia, D.Terezinha Bolivar fez uns acordes triunfais no piano e a diretora anunciou, devagar, solene: “Ao aluno que mais se distinguiu durante todo o curso com os melhores resultados,,,” Seria ela? Deu um passo a frente....”Roberto Alvarenga”.....deu um passo atrás. Roberto Alvarenga, um garotinho quieto, silencioso, inteligente, capaz. Colheu da vida os resultados que mereceu. Foi médico respeitado pela classe científica professor, diretor da UFMG. Ela? Seguiu o destino de toda moça de família - preparar-se para um eventual casamento. Aulas de cozinha, costura, bordado, um pouquinho de inglês, o piano. O resultado foi o pai lamentar, o tempo todo, tanto dinheiro jogado fora. Não serviu para nada. Eu gostava do piano. Sem praticar, acabei esquecendo, mas ficaram na memória todas as músicas de classe que passei a cantarolar a vida inteira, amamentando, mudando fraldas passando enceradeira (sabem o quê é isto?). Cantarolava também algum Beethoven, trecho <> para irritar o marido.
Baixo os olhos nas minhas avaliações. Que merda! Sei perfeitamente o que aconteceu. Foram duas as razões principais: a primeira, a avidez como iniciei o primeiro semestre. Entrei nos livros que peguei na biblioteca das netas. Os mais massudos, os autores mais importantes e os levei para casa quase adernando sob o peso dos mesmos. Não me ocorreu a falta de competência, de qualquer embasamento para consultá-los. Virei um liquidificar de idéias jurídicas. A segunda razão, esta sim, foi bastante traumática. Percebi, pela primeira vez, que minha memória recente já não mais funcionava. Debrucei nos livros absolutamente desesperada. Não acreditava. Lia, relia e no dia seguinte, nada. Nesta ocasião fui a São Paulo atender uma filha que não estava bem. No mês de ausência decidi que não mais tentaria a Faculdade. Ao retornar, já em abril, procurei o Prof. Nelder na secretaria, pedindo o cancelamento da matrícula, sem falar da minha decisão. Havia passado o prazo. Ele então ponderou que eu jogaria dinheiro fora nos meses que restavam. .Porque não continuar? No semestre seguinte cumpriria toda a grade. Foi o bastante para me reanimar. Quem sabe?
Passei a pesquisar o meu problema. Indaguei de muitas amigas, mais ou menos da mesma idade, sobre a memória. O resultado era avassalador - ninguém se lembrava de nada recente. Ficavam apenas fatos de rotina que não levavam a concluir se tratar de memória. Apenas hábitos. Algumas delas, como eu, nunca deixaram a leitura, a cultura e de modo geral se interessavam por diversos assuntos. Eram curiosas e sedentas de conhecimentos, palestras, documentários, atualidades. As poucas senhoras que declararam não ter qualquer problema, atuavam ainda como professoras ou profissionais em firmas comerciais e industriais. Li trabalhos científicos de neurologistas famosos, pesquisei as experiências recentes sobre neurônios, envelhecimento, alzheimer. Neles encontrei algum conforto: os neurônios responsáveis pela memória voltam a funcionar com o exercício continuo.Tudo o que não funciona no organismo, tende a extinção. Um braço gessado, em um só mês começa a perder os músculos, atrofia. Desejei demais acreditar nisso. Tentei acreditar também que a falha estaria no fato de nunca termos desafiado a memória na cobrança posterior das nossas atividades. Nós nos perguntamos, algum dia, o enredo da peça assistida ontem? Qual o tema do filme que assistimos? Sobre o que versava a palestra do sábado anterior? Qual o livro e autor que foi lido no mês passado? Aquele que proporcionou tantas horas de encantamento? Quando você foi ao Rio assistir aquela peça X, que tipo de apresentação aconteceu no teatro tal? Monólogo? Drama? Comédia? Opereta? A resposta era o desinteresse em incomodar a memória.
Não é animador o que contei. Mas posso garantir que o esforço e o empenho nos estudos fazem ressurgir a memória. Não no ritmo que gostaríamos, e nem sabemos a quantidade que vai retornar. Às vezes a luta é dura e desanimadora. Mas tem compensado. Só a vivência com os jovens nos traz o prazer de um presente otimista, alegre, muitas vezes irresponsável. Não damos mais ao passado a oportunidade de nos importunar e ao futuro negamos um prazo, porque estamos empenhados em um objetivo a alcançar. Talvez seja um estímulo que leve alguns idosos a tentarem realizar algum sonho acalentado durante toda a vida. Vale a pena ficar lamentando a idade? Vale aceitar exercer atividades que não interessam tanto, mas nos são impingidas como as possíveis?
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