25 de janeiro de 2012

O poder de influência do professor ( UM)

O nazismo seria possível nos dias de hoje? A partir desta pergunta, o professor Ron Jones resolveu fazer uma experiência prática com seus alunos. Para mostrar como é ter que seguir regras de um líder, instituiu a disciplina em sala de aula fazendo os alunos marcharem e sentarem em suas carteiras em posição ereta. Logo o movimento extrapolou a sala de aula e envolveu mais de 200 estudantes para surpresa do próprio docente que ficou empolgado com tamanho poder de persuasão. Rapidamente, a iniciativa começou a gerar consequências ruins próprias ao regime fascista, como o sentimento de superioridade e a intolerância entre os membros e os jovens fora do movimento. Percebendo a dimensão de sua ação, o professor colocou um ponto final na experiência lembrando Adolf Hitler e os efeitos negativos da restrição da liberdade. Essa história real aconteceu em 1967 em uma escola na Califórnia, nos Estados Unidos, da qual Jones foi demitido dois anos após o ocorrido, e foi retratada no filme A Onda (foto). Esse caso ilustra como o educador pode influenciar a vida e as ideias dos alunos. Afinal, quem não se lembra de algum professor que tenha direcionado alguns pontos de vista que hoje você defende como seus? Até onde a influência inevitável da ideologia do educador pode ir sem se transformar em doutrinação? Será que é possível ser imparcial em sala de aula? Uma pesquisa da CNT/Sensus mostrou que, para 78% dos professores entrevistados, o papel mais importante da escola é “formar cidadãos”. Apenas 8% responderam que a missão principal da escola é “ensinar as matérias”. A metade desses mesmos educadores respondeu que o discurso dos professores em sala de aula é “politicamente engajado”, 30% disseram que é “às vezes engajado” e somente 20% dos professores afirmaram ser “neutro”. Foram ouvidas 3 mil pessoas, entre pais, alunos e professores de escolas públicas e particulares de 24 Estados brasileiros em 2008. Se essa pesquisa é um bom reflexo da realidade na educação brasileira, muitos professores podem estar fazendo muito mais do que ensinar. O problema é saber qual impacto terá essa influência na formação dos jovens. É inegável o papel de referência que o professor, tal qual a família, exerce na vida das crianças. Para os jovens, isso geralmente acontece em maior ou menor grau conforme a identificação com o educador. A psicóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Carmem Silvia Cerri Ventura, que também atua na formação de professores, acredita que a influência do educador se dá na medida de seu engajamento em questões políticas e sociais e de sua visão expressa na maneira de trabalhar os conteúdos na escola. “Acho difícil que o professor seja imparcial, mas ele deve ser cuidadoso no modo de se manifestar, respeitando o contexto familiar do aluno. Se o professor é sério, comprometido com seu trabalho, se ele ‘enxergar’ seu aluno, dificilmente sua influência será negativa, porque certamente suas colocações terão embasamento teórico e científico adequados”, afirma a psicóloga. A questão da imparcialidade em sala de aula é um debate antigo. O advogado e fundador do projeto Escola sem Partido, Miguel Nagib, defende que muitas vezes a afirmação de que não existe imparcialidade é usada como justificativa para a doutrinação. Ele admite que todo conhecimento é vulnerável à ideologia e que nesse caso os educadores deveriam adotar as precauções necessárias para reduzir distorções. “Ser imparcial pode ser impossível, mas perseguir o ideal da imparcialidade e da objetividade científica não só é perfeitamente possível, como é moralmente obrigatório para um professor”, enfatiza.

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