25 de janeiro de 2012

O poder de influência do professor ( DOIS)

Se a imparcialidade é impossível e a doutrinação condenável, como o professor deve agir em sala de aula? Há quase um século o sociólogo alemão Max Weber já tratava da questão no texto A Ciência como Vocação. Weber via a sala de aula como um lugar em que os estudantes estão em desvantagem, condenados ao silêncio, sem possibilidade de crítica perante ao mestre. “É imperdoável a um professor valer-se dessa situação para buscar incutir em seus discípulos as suas próprias concepções políticas, em vez de lhes ser útil, como é de seu dever, através da transmissão de conhecimento e de experiência científica.” Weber afirmava que aqueles professores que quisessem transmitir suas ideologias aos jovens deveriam fazê-lo fora da escola, onde os alunos estivessem em pé de igualdade. O professor de História e diretor da Escola Estadual Leonor Quadros, em São Paulo (SP), Ricardo Barros Sayeg, acredita que o professor deve expressar suas opiniões em sala de aula sem que isso interfira no conhecimento que está sendo abordado. “É importante que ele expresse sua opinião sobre um determinado tema para os alunos, mas deixe claro que aquela é apenas uma visão de mundo dentre diversas outras possíveis. Nesse sentido, é interessante quando o professor trabalha com discursos de diferentes filiações ideológicas na análise de um determinado tema”, afirma Sayeg. Nagib também admite que o professor revele seus pontos de vista, porém com ressalvas: “Jamais contestamos a liberdade do professor de expressar suas opiniões em sala de aula. Esta liberdade, contudo, não é absoluta. O professor não pode usá-la para ‘fazer a cabeça’ dos alunos. A liberdade de ensinar do professor termina onde começa a liberdade de aprender do estudante”, explica. O dilema é se o docente, ao expor suas opiniões, às vezes até sem ter essa intenção, manipula os alunos a pensarem como ele pela influência que exerce nos jovens. O caminho para evitar isso é contribuir para a formação do espírito crítico nos estudantes. O professor Josué Cândido da Silva, da Universidade Estadual Santa Cruz, na Bahia, doutor em Filosofia e mestre em Sociologia, com ênfase em Ética, ressalta a importância do educador ajudar os jovens a desenvolverem autonomia intelectual, apresentando sempre diferentes pontos de vista sobre um mesmo tema. “Além disso, deve mostrar quais os critérios de objetividade e rigor científico, para que possam discernir o que é uma teoria e o que é um mero achismo”, acrescenta. A professora Carmem Ventura reforça a importância do incentivo ao debate, ao contato com opiniões diferentes, fundamentadas no estudo e na análise da realidade, para que o jovem tenha melhores condições de fazer suas escolhas. “A ‘doutrinação’ só pode ser evitada se houver uma visão crítica dos fatos, em que simplesmente o aluno não ‘engula’ o que lhe dizem sem ser estimulado para o questionamento”, resume. Apesar de possuir certa liberdade de expressão, o educador também não deve esquecer do papel de modelo que representa perante os alunos. Dentro da sala de aula, o professor é o representante das normas que regem a sociedade e não pode, por exemplo, emitir uma opinião que vá contra os direitos humanos. “Mesmo que o professor pense que as mulheres são naturalmente inferiores aos homens, ele nunca poderá dizê-lo em sala de aula, pois, na sala está cumprindo uma função educativa e, como tal, deve encarnar os valores universais. Muitos pensam que isso é restringir a liberdade do professor, mas nossa profissão assim o exige. Caso queira expressar livremente suas opiniões, então escolha um púlpito ou um palanque, mas não a sala de aula”, exemplifica Josué da Silva.

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